Chegávamos à cidade mais alta do mundo: a fria e ventosa Potosi, a 13.420 pés acima do nível do mar. Já na chegada, um típico problema boliviano: a falta de palavra/compromisso. O motorista queria nos deixar na rodoviária e não no centro histórico como havíamos combinado. Nada que uma pequena ignorância expressada em português e um olhar intenso de louco dentro da lama do sujeito não resolvesse. Kakaka.
Descemos nossas mochilas, já cansados. Os mais de 4 mil metros de altitude não eram brincadeira. Seguimos por uma subida não muito agradável em busca de um albergue. A cidade estava muito cheia! Mochileiros de toda parte do mundo, e em especial, muitos argentinos (e argentinas).
Buscando por um albergue, caminhamos muito pela cidade, e foi então que eu conheci Verónica, de Rosário – Argentina. Ela caminhava sozinha quando eu a vi passando e a cumprimentei. Ela respondeu tímida, mas eu insisti perguntando seu nome e logo me apresentei. Os caras continuavam caminhando e eu começava a ficar pra trás. Então eu lhe disse que não encontrávamos uma hospedagem disponível. Ela, extremamente gentil, sugeriu que fôssemos procurar vaga no mesmo lugar que ela e suas amigas estavam. Seguimos por um longo tur pela cidade até sua hospedagem. Eu tentava exercitar meu portunhol safado quando descobri que ela falava português. Bem legal!
No albergue tivemos que aguardar um pouco na recepção, mas conseguimos vagas bem confortáveis. Me despedi de Verónica e combinamos de nos encontrar e sair a noite. Ela se despediu dos caras também (em português) para surpresa deles. Ali mesmo na recepção, conhecemos um outro grupo de brasileiros que também aguardavam para se acomodar em seus quartos. Já tínhamos visto essas pessoas em Puerto Quijarro, e eu me lembrei deles (na verdade, delas. Hehehe. Lali e Renatinha, buenisimas personas!) apesar de nem termos conversado. Era bom falar em português e todos pareciam muito legais!
Subimos para nosso quarto. Éramos privilegiados. Na subida das escadas nos deparamos com uma vista cabulosa! Além da paisagem, podíamos ver o local de convivência do albergue. E no quarto, a janela se abria para a rua e a água do chuveiro era quente-fervendo! Fui tomar banho…
Tinha fome, então desci para perguntar onde encontrávamos um lanche ali por perto. Encontrei então com Verónica, que tinha uma amiga enferma: mal de soroche¹. Quem mandou não mascar folha de coca? Ofereci-me então para fazer um chá de coca e em seguida para acompanhá-la até o hospital com a amiga e assim pegamos um taxi. Conversamos bastante sobre muitas coisas, inclusive o motivo de ela saber falar português: sua mãe teria uma escola de línguas e, além disso, ela passava suas férias de verão no Brasil, por coincidência no meu estado natal, Rio Grande do Sul. O papo era agradável, mas a espera era longa, porém facilmente suportável com a ajuda de 3 cervejas que comprei na pracinha de frete ao hospital. Compramos o medicamento que a garota necessitava e voltamos para o albergue.
Uma das amigas delas, estudante de medicina, aplicaria a injeção com o medicamento, mas não teve coragem (creio que era caloura da faculdade de medicina ainda). Então saímos novamente para procurar um posto de saúde que tivesse alguém para aplicar… Mais conversa, mais cerveja e minha fome aumentava. Injeção aplicada, problema quase resolvido, de volta pro albergue. Mas eu ainda tinha fome, e muita!!! Fred, Reinaldo e Renato não estavam no albergue.
Me despedi das garotas argentinas e fui de rolé comprar um rango.
¹ Também chamado de Mal Agudo de Montanha (MAM), o mal da altitude é a dificuldade do organismo em absorver oxigênio para suprir as necessidades a que estamos nos impondo, o que acaba por causar uma série de efeitos, que podem em casos muito graves culminar com a morte do indivíduo.
É o resultado da falta de aclimatação, afeta a uma grande porcentagem de montanhistas e se não for tratado pode derivar ao edema pulmonar ou cerebral e por em risco a vida das pessoas. Os primeiros sintomas se apresentam de 2 a 8 horas depois de chegar a altitudes geralmente superiores aos 3.000 metros, embora possam se apresentar em altitudes menores dependendo do organismo de cada pessoa.